Francisco Rolfsen Belda

Textos, Cursos e Publicações | Prof. Dr. Francisco Rolfsen Belda

O gap tecnológico na educação

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Por que ainda é tão difícil usar a informática para inovar o ensino no Brasil?

A adoção de “sistemas multimídia”, “ambientes virtuais de aprendizagem” e “ensino a distância” em centenas de cursos de nível médio e superior fez esquentar o debate entre educadores, cientistas e intelectuais de toda espécie sobre como (e até se) deve a educação transformar-se com as novas tecnologias de informação e comunicação.

Uns anunciam-nas como a maior revolução “desde o apagador”. (A comparação é curiosa: das pinturas rupestres às lousas de salas de aula, o principal incremento tecnológico parece ser mesmo o simples apagador; o próximo seria o computador). Mas muitos especialistas mais conservadores ainda mantêm um pé atrás.

Afinal, a transformação não é pouca. Há, de um lado, o impacto econômico na gestão escolar, com a necessidade de investimentos e possibilidade de redução de custos e geração de novas receitas. De outro, há o impacto cultural, com mudança de costumes, comportamentos e papéis tradicionalmente atribuídos a alunos e professores.

Goste-se ou não, são movimentos inevitáveis. Minha opinião é que são positivos, desde que bem planejados em cada situação e propósito. Não é a panacéia que muitos tecnicistas pregam. Tampouco a ameaça vista pelos saudosistas do quadro-negro. Como toda inovação, tem lá seus riscos. Mas lutar contra é perda de tempo.

O fato é que as redes de interação social e troca de conhecimentos pela internet mudaram radicalmente as formas de aprendizagem. A própria idéia de ensino, como uma transmissão vertical de saberes, quase deixou fazer sentido. “Share your knowledge”, dizem. E todos – professores, alunos, tutores, profissionais, amigos, familiares – têm algo a oferecer.

Ferramentas

Já não são apenas as palavras – essência dos nossos livros didáticos – que dão significado ao conhecimento. Muitas vezes, elas são meras coadjuvantes no mosaico multimidiático que caracteriza a experiência intelectual contemporânea. A própria percepção do tempo e do espaço adquiriu outro ritmo, e trouxe consigo uma nova estética do saber.

Vejam-se, por exemplo, as simulações de processos naturais ou de técnicas de engenharia criadas em animações virtuais, com narrações precisas em áudio e imagens em três dimensões. Uma vez codificadas, podem ser acessadas e reproduzidas em telas de tevê, computador, celular, palmtop, MP4 ou qualquer outro dispositivo, a qualquer tempo.

Há ainda os grupos de colaboração pela internet, apoiados por softwares livres e gratuitos de gestão do conhecimento. Estes oferecem ferramentas interativas de glossário, fórum de discussões, edição de textos e planilhas, agendas, enquetes, salas de chat, além de controle de versões, fluxos, prazos, freqüência e tudo o mais que se queira avaliar.

Aulas até então necessariamente presenciais agora podem ser feitas, em tempo real, em salas virtuais de conferências, onde se reúnem, com hora marcada, professores, alunos, tutores e consultores convidados. Basta uma webcam e uma conexão de banda larga para cada aluno. O serviço de voz sobre IP é gratuito. A câmera custa perto de R$ 50.

A conexão, sim, ainda é cara no Brasil, basicamente devido aos termos de concessão do serviço. Mas pode ser feita em rede coletiva, na própria escola e em centros comunitários. O ideal seria fomentar a instalação de antenas wi-max, que propagam o sinal de conexão em um raio de até 50 quilômetros, abrangendo uma cidade toda. Creio ser questão de tempo.

Além de sua praticidade, todas essas soluções, se bem implementadas, podem ser tão fascinantes e informativas quanto poucas aulas expositivas o conseguem ser. Além disso, estão perfeitamente sintonizadas com os hábitos comunicativos da nova geração, que já aderiu em massa a IPods, celulares e páginas de relacionamento na internet.

Atualização

Um problema que persiste é a resistência de muitos professores à adoção dessas tecnologias. Alguns parecem temer a própria obsolescência, o que é uma bobagem, pois sempre será preciso planejar, elaborar, produzir e orientar o processo de aprendizagem em ambientes virtuais. O que precisam é redescobrirem-se como docentes.

Há bons professores e professoras que sequer utilizam o serviço de email. Muitos mal sabem como ligar e desligar um microcomputador. Que dizer então do uso de softwares de gestão do conhecimento e de dispositivos portáteis de recepção e projeção multimídia? Fale-se disso em uma escola pública qualquer e ver-se-á o alvoroço.

Um argumento freqüentemente empregado pelos resistentes é que há, nas escolas, problemas mais graves e urgentes do que o incremento tecnológico. Salários, orçamento escolar, disciplina, valorização do magistério. Alguns são mitos, outros não. Nenhum deles impede, contudo, esse tipo de inovação. Ela, aliás, ajudaria a superar muitos problemas.

Grande parte da indisciplina nas salas de aula deve-se à incapacidade de se estimular os estudantes. Trabalhos audiovisuais interativos são, em geral, mais motivadores do que aulas expositivas centradas na palavra do professor. Este, por sua vez, ganharia prestígio ao diferenciar suas aulas com técnicas e métodos inovadores, sem perda de conteúdo.

Os problemas salariais e orçamentários, se não podem ser resolvidos com a incorporação de novas tecnologias educativas, pelo menos não são um óbice a elas. Como visto, há softwares gratuitos, conexões compartilhadas e muitos equipamentos podem ser aproveitados, como computadores, televisores e aparelhos de DVD. Empresas poderiam ajudar a bancar o resto.

Inovações

Talvez o que mais faça falta seja uma mentalidade realmente inovadora nos círculos pedagógicos do país. Muitos professores ainda vêem com preconceito o uso feito pelos jovens de ambientes virtuais de pesquisa e relacionamento. Consideram como um desvio de atenção, uma dispersão de foco em relação ao que crêem ser realmente importante.

Em vez de combater esses hábitos, educadores poderiam procurar saber como utilizar essas ferramentas para incentivar pesquisas e trabalhos interativos. Há muita coisa interessante no YouTube, por exemplo, e poucas vezes fiquei insatisfeito com o resultado de pesquisas feitas por meio da Wikipedia, com suas múltiplas possibilidades de busca e navegação, incluindo correções colaborativas.

Para pesquisadores mais rigorosos, em cursos de graduação ou pós, a biblioteca científica eletrônica Scielo, o Portal do Saber, a Plataforma Lattes e os portais Eurekalert e AlphaGalileu são extremamente úteis. Redação de teses e sessões de orientação também ganham agilidade com editores colaborativos acoplados a serviços de VoIP.

Até aqui, tudo depende apenas do uso de ferramentas prontas, disponíveis na internet. Indo um pouco além, textos, imagens, vídeos e animações podem ser distribuídos com muito mais abrangência e acessibilidade quando codificados em XML, uma linguagem de marcação que torna as informações legíveis por qualquer dispositivo, inclusive os portáteis.

E com a disseminação dos sistemas operacionais da plataforma Linux, sobretudo de versões amigáveis como o Ubuntu, mesmo as configurações mais básicas podem ser feitas sem custo e de forma personalizada para atender às necessidades de cada usuário. Compram-se nas bancas de jornal pequenos livretos que explicam, passo a passo, como fazê-lo.

Não seria justo, contudo, esperar que todos os profissionais da educação, de uma hora para outra e por conta própria, incorporassem todos esses conhecimentos e práticas. Mas um treinamento coletivo de capacitação, aplicado em larga escala, com sensibilidade e atualização periódica, poderia iniciar a transformação.

Primeiro, talvez, seria preciso incentivar os professores a tornarem-se usuários dessas novas tecnologias, mostrando-lhes o benefício para sua própria organização pessoal e atualização profissional. Daí a agirem como multiplicadores dessas experiências, adaptando-as e incrementando-as com propósitos educativos, seria só mais um passo.

Vincule-se isso a um plano de carreira que incentive o professor a reciclar suas práticas (e não apenas seus conhecimentos) e teríamos o embrião de um programa para conter o gap tecnológico na educação. Não é tarefa fácil em um país com tantas urgências e prioridades. Mas é imprescindível para que se possa mirar o futuro, ainda que na tela de um computador.

Written by Francisco Rolfsen Belda

24/08/2008 às 22:24

Publicado em educação

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4 Respostas

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  1. Olá Professor.
    Venho comunicar-te que criei meu blog no wordpress, e queria comentar sobre este texto, que achei muito interessante de fato a parte em que cita um trecho que diz que lutar contra a tecnologia é perder tempo.
    Acho que nem todos tem este pensamento não é? Querendo ou não a tecnologia facilita tudo, é só nos adaptarmos à ela como sempre nos adaptamos a qualquer situação em nossas vidas.
    Ótimo texto.
    Abraços.

    Vinícius Mittitier

    27/08/2008 at 4:11

  2. Papéis e mais papéis ainda são gastos com livros, cadernos e materiais didáticos que daqui a algum tempo ficarão vulneráveis. Nunca me esqueço quando mudei o hábito de uma professora de história do meu colegial. Ela tinha lá seus cadernos com toda a matéria resumida, passada a mão, com as folhas todas amareladas já com o tempo e ano a ano ela transpassava tudo aquilo de volta para a lousa. Um dia resolvi não copiar mais a matéria. Comecei, sem a professora perceber, a fazer fotos de cada lousa que enchia e, quando eu chegava em casa, copiava das fotos o texto para o computador. A epidemia foi grande na sala e muitos queriam a cópia digital de toda a matéria, não precisando mais transcrever a mão lousas e lousas de história geral. Não passou muito tempo e esta professora já distribuía disquetes com os arquivos digitais de sua matéria, ganhando, assim, muito mais tempo para explicar as matérias. É formidável o que podemos fazer com essa nova tecnologia que está chegando às nossas mãos.

    Belda, parabéns pelo texto!

    Felipe Morais

    28/08/2008 at 18:16

  3. Olá Belda, tudo bem?

    Você nem deve saber, mas suas aulas me nortearam na profissão e tiveram uma influência muito positiva no que é “fazer jornalismo” e “ser jornalista”. Uma vez você levou uma mala de livros e revistas na sala – foi quando descobri o Jongo e fizemos um documentário no Quilombo São José (eu, Manu, Carol e Tiago), você nos ajudou bastante. Na época, eu trabalhava na produção de conteúdo do Projeto TV Digital no CPqD, sempre gostei muito de Ciência e Cultura e decidi estudar, aprender, apreender e ainda estou nesse processo.

    Fiz Especialização na Cásper Líbero e vou prestar Mestrado em Imagem e Som na UFScar. Na verdade gostaria de uma orientação sua. Você fez Mestrado em São Carlos, não fez? Você sabe de algum projeto interessante na área de Cultura Popular que esteja sendo desenvolvido lá ? Ou você tem algum projeto interessante sobre o Jongo ou Cultura Popular que gostaria de desenvolver?

    Um abraço,
    Carla Beraldo.

    Carla Beraldo

    11/07/2009 at 17:17

  4. Ótima reflexão Belda..Grande abraço
    Paulo H. R. Cardozo

    Paulo H. R. Cardozo

    19/11/2011 at 21:33


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